as páginas

lift,
bringen sie mir einen kaffee
ende der welt

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade



As sem razões do amor



Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 1 de novembro de 2009

Manuel Bandeira


Os sapos


Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...


Manuel Bandeira
em "Estrela da Vida Inteira"

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fred Matos



Se eu fosse um anjo



Tivesse asas, fosse um anjo,
poderia cingir-te aos braços
sem a volúpia que me inflama
e não roubaria os beijos
da boca que não me ama.

Poderia, talvez pudesse,
serenar-te o ânimo,
murmurando velhas fábulas
de amizades inumanas:
tivesse asas, fosse um anjo.

Poderia, talvez pudesse,
levar-te às estrelas,
onde se pode entender
a insignificância de tudo:
tivesse asas, fosse um anjo.

Mas não sou um anjo.
pulsam em mim as paixões
que movem a espécie humana
e o meu desejo é maior
que a razão que a hora clama.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Marco Aurélio Pais

Techné


Por mim, me imponho, sim, essa gramática
De sílabas contar fazer rimas,
Me dou por desafio à disciplina
Por minha progressão autodidática
Eu sei que só o difícil é que ensina
E não se opõem o visceral e o técnico,
Recuso-me ao prosaico e ao hermético
E aos versos de diário de menina
Um tanto culinário, um tanto atlético,
Busco juntar razão e sentimento
E dar forma de canto ao meu lamento
Para ser livre em todo molde métrico.

Não limo jóias finas de senhora
Nem faço versos só como quem chora.

domingo, 25 de outubro de 2009

Paulo Mendes Campos


relógio de sol



De todas as minhas façanhas
a que me dói mais lentamente
é sentir nas minhas entranhas
o meu coração arbitrário
girando em sentido contrário
à parábola do poente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

compensação


os bons momentos compensaram
as cicatrizes que deixastes
mas não as contas vencidas
o telefone mudo
a energia cortada
as crianças sem escola
euzinha sem cirurgia plástica

seus apelos não me comovem
já contratei advogado
pra pedir tua prisão
homem pode ser sacana
mas eu não fico na mão
por mim mofas na masmorra
com a boca cheia de porra

du

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

recado

a música me leva
e eu não percebo
o balanço do corpo
a lua cheia tatuada
o pingente de cristal
as rosas vermelhas
o cálice sobre a mesa
o perfume de jasmim

deixaste a luz acesa
estou morto de sono
a cama está desfeita
é tarde e não te acho
só um bilhete no espelho
um gato sobre o telhado

estou muito cansado
amanhã faço um poema


du