lift,
bringen sie mir einen kaffee
ende der welt

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fred Matos



Se eu fosse um anjo



Tivesse asas, fosse um anjo,
poderia cingir-te aos braços
sem a volúpia que me inflama
e não roubaria os beijos
da boca que não me ama.

Poderia, talvez pudesse,
serenar-te o ânimo,
murmurando velhas fábulas
de amizades inumanas:
tivesse asas, fosse um anjo.

Poderia, talvez pudesse,
levar-te às estrelas,
onde se pode entender
a insignificância de tudo:
tivesse asas, fosse um anjo.

Mas não sou um anjo.
pulsam em mim as paixões
que movem a espécie humana
e o meu desejo é maior
que a razão que a hora clama.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Marco Aurélio Pais

Techné


Por mim, me imponho, sim, essa gramática
De sílabas contar fazer rimas,
Me dou por desafio à disciplina
Por minha progressão autodidática
Eu sei que só o difícil é que ensina
E não se opõem o visceral e o técnico,
Recuso-me ao prosaico e ao hermético
E aos versos de diário de menina
Um tanto culinário, um tanto atlético,
Busco juntar razão e sentimento
E dar forma de canto ao meu lamento
Para ser livre em todo molde métrico.

Não limo jóias finas de senhora
Nem faço versos só como quem chora.

domingo, 25 de outubro de 2009

Paulo Mendes Campos


relógio de sol



De todas as minhas façanhas
a que me dói mais lentamente
é sentir nas minhas entranhas
o meu coração arbitrário
girando em sentido contrário
à parábola do poente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

compensação


os bons momentos compensaram
as cicatrizes que deixastes
mas não as contas vencidas
o telefone mudo
a energia cortada
as crianças sem escola
euzinha sem cirurgia plástica

seus apelos não me comovem
já contratei advogado
pra pedir tua prisão
homem pode ser sacana
mas eu não fico na mão
por mim mofas na masmorra
com a boca cheia de porra

du

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

recado

a música me leva
e eu não percebo
o balanço do corpo
a lua cheia tatuada
o pingente de cristal
as rosas vermelhas
o cálice sobre a mesa
o perfume de jasmim

deixaste a luz acesa
estou morto de sono
a cama está desfeita
é tarde e não te acho
só um bilhete no espelho
um gato sobre o telhado

estou muito cansado
amanhã faço um poema


du

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

imagem





deixe-me brincar com as tuas mãos
ponha a destra no meu sexo
a outra no meu cabelo

se fores minha imagem no espelho
e a realidade perdeu o nexo
meus olhos são onde os teus estão


du

terça-feira, 20 de outubro de 2009

proposta

quando nos separamos
não nos dissemos adeus
e deixaste-me convicto
que teus olhos eram meus

por serem meus os teus olhos
foi com eles que enxerguei
que os meus joelhos tremiam
no dia em que te me entreguei

e quando partistes sorrindo
levaste contigo meus sonhos
deixando comigo a ilusão
da loucura que te proponho:

atire-te do mais alto penhasco
que te apararei nos meus braços


du

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

identidade

eu tinha um sonho
mas era tarde
e descobri
que sou covarde

em todo caso
mas sem alarde
vesti uma nova
identidade

pus o meu sonho
no teu sorriso
abandonou-me
ficou contigo

uma esperança
ainda me resta
que vindo a morte
seja uma festa

du

Vladimir Maiakóvski

A FLAUTA VÉRTEBRA

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.


tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Charles Baudelaire

Spleen e Ideal
II - O Albatroz


Às vezes, por folgar, os homens da equipagem
Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
Que segue - companheiro indolente de viagem -
O navio no abismo amargo a deslizar.

E por sobre o convés, mal estendido apenas,
O imperador do azul, canhestro e envergonhado,
Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
Eis que deixa arrastar como remos ao lado.

O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
Outro imita a coxear o enfermo que voava!

O Poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar.


Charles Baudelaire
Em: As Flores do Mal
Tradução: Jamil Almansur Haddad.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Fernando Pessoa

Prece


Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!